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21 anos sem fumar

 

No próximo dia 5 de janeiro, completo 21 anos sem fumar. É como chegar de novo à maioridade. Precisei disso para concordar com o que sempre ouvi dizer e nunca levei a sério —que fumar é um ato infanto-juvenil que as pessoas levam pela vida afora. É verdade, mas aprendi também que não é só isso.

Há uma diferença entre começar a fumar e continuar a fumar. Começa-se porque os adultos em volta fumam e porque queremos ser adultos. Mas só continuam a fumar aqueles cujo organismo supera os primeiros dias de ingestão de fumaça —os que não suportam seus efeitos param por ali mesmo. E os que não acusam tais efeitos não veem razão para parar. Foi o meu caso. A propaganda maciça, a facilidade para comprar e o baixo custo do produto dão continuidade ao uso. E, com este, fecha-se rapidamente o ciclo: vem a dependência.

O século 20 criou uma fascinante liturgia sobre o suposto charme de fumar —os cigarros importados, os isqueiros Zippo, os cinzeiros subtraídos de hotéis históricos (o meu, trazido na mala "por engano", era do Algonquin, de Nova York). Fumava-se no avião, nas salas de espera, até no hospital —médicos fumavam. Mas o principal e diabólico argumento do discurso referia-se ao prazer de fumar.

Passei por todas as etapas acima e hoje sei de onde vem esse prazer. Fumar, em si, não dá prazer. Só parece dar, porque aplaca a fissura que ele próprio cria —pelo fato de que o cigarro anterior acabou há 15 ou 30 minutos. Ou seja, quem nunca fumou não sentirá necessidade de fumar nem falta do "prazer". Essa descoberta deu-me a dura sensação de ter sido tapeado nos 37 anos em que fumei.

Escrevo isto ao ler no Globo (14/12) a frase do diretor-geral da Philip Morris no Brasil: "Cigarros pertencem aos museus". E por que não? Sua empresa continua a vender nicotina em vapes sem fumaça, sachês que se colocam na gengiva, bastões de folhas de tabaco aquecido e outras formas de causar dependência. E, num aparente ato falho, disse: "Provocam menos dano". É só a nova estratégia.

Folha de São Paulo, 24/12/2025