Certa vez, no Natal, anos 1940, meu pai recebeu uma gratificação da ferrovia. Alegria geral, ele comprou uma cesta de Natal, coisa cara. Sabe-se lá porque, a gratificação, veio toda em contente, como se dizia. Mamãe assustou-se: “E se alguém souber que temos tudo isso em casa? Não vou dormir”. Papai acalmou-a. O único ladrão célebre e audacioso estava em São Paulo, Meneghetti.
Famoso por entrar nas casas pelo telhado. Papai acalmou-a: “Vou esconder debaixo do menino Jesus. Quem vai ter coragem de roubar?”. Assim fez, nada aconteceu. Naquela época não existiam deputados como Sosténes que recomendaria guardar em sacos de lixo. Aliás, sacos de lixo nem existiam. Nem plástico havia. Dinheiro em lixo mostra o desprezo que parlamentares têm por ele. Afinal, vem fácil das emendas. Sóstenes explicou: “Pois é, acabei de vender à vista algumas dúzias de laranja...”.
Penso que disso nasceu em mim o hábito de guardar dinheirinho dentro de livros. Estes nunca faltaram em casa. Quem se atreveria a levar dinheiro de dentro de uma biografia de Jesus, de Nossa Senhora, ou Santa Luzia, protetora dos olhos? Ficaria cego.
Ainda hoje, ao receber um troco alto, enfio em livro. Voltando de uma feira literária com o cachê em notas, puxei um livro e guardei. A Jornada Literária de Passo Fundo, produção de Tania Rösing, que reunia 7 mil estudantes e professores na plateia, tinha uma regra. Na hora de ir embora, éramos chamado a uma saleta e recebíamos o cachê em um envelope. Nada de PIX, depósito em conta. Tudo legal, víamos o tesoureiro, ou um bancário com escolta chegar com a maleta. Tudo legal, documentos assinados. Diferentemente do que fazem pastores que pregam a salvação e fazem sermões com o número da conta pairando sobre as cabeças abençoadas.
Cada vez menos coloco dinheiro em livro. Vez ou outra, apressado, abro um volume e ali coloco notas ou os jogos feitos na Mega Sena. Só que, às vezes, meses depois, preciso, procuro e não acho. Invoco Santo Antônio, que de pronto me mostra onde estão os reais. Nem sempre funciona. Daí minha surpresa, vez ou outra, ao abrir um volume e dar com um montante olvidado. Festejamos estes pequenos tesouros perdidos, como os antigos piratas festejavam o encontro de baús coalhados de ouro, prata, objetos preciosos. E tenho amigos que não entendem por que não empresto livro. Afinal, são 18 mil o que leva minha mulher Marcia à loucura: “Um dia a laje cai”. Não adianta ladrão entrar. São milhares. E para achar algo terá de abrir um a um. Três faxineiras desistiram, exaustas, enlouquecidas.