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Fumar é estúpido

 

Semana passada, numa roda de amigos, pronunciei uma frase que nunca pensei dizer: "A coisa mais estúpida que fiz na vida foi fumar". E só então me dei conta de que estava diante de meus três ou quatro únicos amigos ainda fumantes. Temi tê-los magoado. Eram pessoas com quem, no passado, eu havia fumado. E, de repente, essa contundente declaração de culpa podia dar a entender que, sem querer, eu os estava chamando de estúpidos. Mudei de assunto rapidinho.

Fumei com tranquilidade durante 37 anos, dos 19 aos 56, e parei em janeiro de 2005. O motivo foi um câncer na garganta. A intenção de parar, assim que ouvi o diagnóstico do dr. Jacob Kligerman, foi um simples exercício da razão —por que continuar usando algo que me fazia mal? Mas será que conseguiria? Talvez. Por ter também parado de beber, em 1988, sofrendo os rigores de uma internação, eu sabia como o organismo iria reagir à interrupção do fornecimento de nicotina. Ele não iria gostar nem um pouco.

A provar que a dependência é mais forte do que o medo da morte, naquele dia ainda fumei um cigarro. No dia seguinte, outro. Para quem consumia mais de 20 Marlboros por dia, isso detonou uma severa síndrome de abstinência —fissura, ansiedade, insônia, a busca automática pelo maço que já não estava no meu bolso ou ao lado do computador. A cada vez, eu me dizia: "Não, este cigarro eu não vou fumar. Quem sabe, daqui a pouco?" E, dali a pouco, a mesma atitude. No terceiro dia, a síndrome chegou ao auge, mas me segurei, sem saber que, na véspera, eu tinha fumado meu último cigarro. E confiava em que o organismo se rendesse e aprendesse a viver sem nicotina. Foi assim —e assim é até hoje, sem uma só recaída.

Para quem não sabe, um dos efeitos imediatos de parar de fumar é, por algum tempo, uma tosse renitente. Parece irônico, mas ela é provocada pela autolimpeza que os seus pulmões estão fazendo, botando para fora o lixo que você depositou neles.

O assunto parar de fumar talvez me renda novas baforadas neste espaço.

Folha de São Paulo, 25/12/2025