Antônio Torres, fez sua estreia no cenário da literatura nacional em 1972 com o romance Um cão Uivando para a Lua, já causando uma reação muito positiva da crítica e do público. E assim seguiu a promessa de um grande escritor nascido no sertão baiano para ganhar o mundo. Ao longo da sua carreira foi empilhando alguns dos mais importantes prêmios no Brasil e no exterior. Entre muitas premiações internacionais, foi condecorado na França com a honraria Chevalier des Arts et des Lettres, em 1998.
Na enxurrada de premiações nacionais destaque para o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra. Além de todo esse reconhecimento, a obra de Antônio Torres também estimulou dezenas de teses e dissertações acadêmicas, aqui e no exterior. Como acadêmico, ocupa na ABL a cadeira número 23. Também é membro da Academia de Letras da Bahia, onde sucedeu a João Ubaldo Ribeiro na cadeira 9. É membro ainda da Academia Petropolitana de Letras e sócio lusófono da Academia de Ciências de Lisboa.
Dos seus livros mais conhecidos, destaque para uma das trilogias, a ‘Trilogia Brasil’ composta pelos romances: Essa Terra, O Cachorro e o Lobo e Pelo Fundo da Agulha. Destaque também para os romances Um Táxi para Viena d'Áustria e Meu Querido Canibal, e para o volume de contos Meninos, eu Conto. Além das várias edições de seus dezessete livros, Antônio Torres tem sua produção traduzida em mais de vinte países, da Argentina ao Vietnã, passando por USA, França, Holanda, Israel, Bulgária, Turquia.
Antônio Torres nasceu num povoado do interior baiano, chamado Junco, hoje, Sátiro Dias. Sua biografia diz que a descoberta da literatura aconteceu lá mesmo, em uma escola rural, com incentivo de professoras, que, com olhar clínico, identificaram o fenômeno que nascera pronto e que tinha o destino da glória e do mundo. Logo, Antônio Torres iria declamar poemas de Castro Alves na pracinha do lugarejo, ajudar o padre a rezar missa em Latin e escrever cartas dos moradores locais. Mais tarde, já em Salvador, foi repórter do Jornal da Bahia. Além de jornalista ele também foi publicitário em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Portugal. Aí o mundo já era seu quintal, seu caminho.
E é com Antônio Torres, um autor dessa altíssima prateleira da literatura mundial, que a Criativos enriquece e enobrece sua galeria de entrevistas com escritores, logo no alvorecer de 2026.
CRIATIVOS - Mestre Antônio Torres, é natural acreditarmos que um escritor consagrado e da sua estatura, - acadêmico, premiadíssimo, reconhecido no Brasil e no exterior, etc. etc. – consiga viver da literatura. Isso sendo verdade, o que o jornalismo e a publicidade representaram ou representam para o escritor e para o cidadão Antônio Torres?
ANTÔNIO TORRES - O jornalismo me ensinou a ver o mundo. E a publicidade a contar isso rapidinho. O que não significa que o batente publicitário tenha me dado apenas um preparo técnico para lidar com as palavras, ao passar dias, semanas, meses e anos batucando num teclado, em aulas diárias de concisão. Era um aprendizado que me levava a outro, sob o impacto do rolo compressor do capitalismo: mais um forno, mais um torno, mais um volks. Chegou! Agora no Brasil! Veja! Leia! Compre! Compre! Compre! Tudo com apelos criativos, incisivos, sedutores. Logo na minha estreia literária, em 1972, com o curto romance Um cão uivando para a Lua, de apenas cem páginas, pude perceber o efeito do dito acima. Foi quando recebi um cartão com o timbre da Academia Brasileira de Letras, e assinado por um de seus membros, o escritor carioca Marques Rebelo. Nesse cartão, o autor de ‘A estrela sobe’ dizia (pasme!) ter ficado “com inveja” do tal cão uivante, pois gostaria de ter “tanta bossa, tanta agilidade, tanto poder de síntese”. Ou seja, o imortal Marques Rebelo estava mesmo era me dando a resposta para uma pergunta que viria a me ser feita hoje pelo senhor repórter Laís Amaral Júnior.
CRIATIVOS - A trilogia, iniciada com o Essa Terra, além de abordar o recorrente êxodo do nordestino rumo ao 'Sul-Sudeste', e o consequente choque cultural, o senhor mergulhou também no drama da oscilação da identidade quando do retorno à terra natal. O senhor sentiu isso na pele? Foi o seu próprio laboratório?
ANTÔNIO TORRES - Primeiro, permita-me lembrar que os três romances que tratam do ir-e-vir Nordeste-Sul-Sudeste (Essa Terra/ O cachorro e o lobo/ Pelo fundo da agulha) foram reunidos recentemente numa baita edição da Editora Record, intitulada Trilogia Brasil, assim batizada pela crítica literária baiana Gerana Damulakis, em resenha publicada no jornal A Tarde, de Salvador. Mas sim: de alguma maneira o laboratório para tematizar esse eixo do deslocamento nacional começa na minha infância rural no sertão da Bahia e segue de cidade em cidade, até São Paulo, onde cheguei, em 1961, já na condição de repórter, e um repórter que teve a sorte de bater à porta de um jornal de grande circulação (Última Hora), e nele entrar, e... ficar! Logo de chegada busquei o convívio com os migrantes das minhas bandas, estabelecidos num bairro da periferia chamado São Miguel Paulista, onde de cara me fizeram a seguinte pergunta: “Sabe dizer se está chovendo por lá?” O que me fez deduzir que se a resposta fosse “sim” podia levar alguém ali a querer regressar à terra, correndo – antes que a seca voltasse a assolá-la. Naquele núcleo migratório na periferia paulistana convivi com os mais variados tipos humanos que mais tarde iriam embasar algumas das minhas ficções.
CRIATIVOS – Como o senhor disse, o despertar foi lá mesmo na Zona Rural baiana, na Junco, hoje Sátiro Dias, incentivado por professoras da escola rural. Não houve nenhuma referência familiar ou literária? Como foi isso?
ANTÔNIO TORRES - As primeiras referências vieram das cantorias dos rimances, (romances com rima), mais conhecidos como poesia de cordel, que, sob o ponteio de uma viola, animavam as noites ao pé de um fogão de lenha, para espantar o medo das assombrações: zumbis, mulas sem cabeça, boitatás, gralhas apavorantes. Naquele tempo e lugar, a cultura oral se impunha sobre a livresca, inexistente. Até aparecer uma professora, chamada Serafina, não só para mostrar um livro – de poesia -, mas para ensinar a lê-lo, em voz alta. No ano seguinte surgiu outra, com o mesmo método de educação, só que com leituras de contos curtos, crônicas e trechos de romances. Fiquei devendo àquelas duas benditas professoras o despertar para as correntes rítmicas em verso e prosa.
E Sátiro Dias, antes um povoado sem livros, hoje tem uma biblioteca pública com mais de um livro para cada um dos seus mais de dezesseis mil habitantes. E muito bem equipada, informatizada, com salas de leitura para adultos e crianças, auditório, e muitas atividades que atraem frequentadores até de municípios vizinhos. E era uma vez um sertão ágrafo. Salve, salve, Serafinas e Teresas do Brasil!
CRIATIVOS - De onde vem a necessária motivação para o início de uma nova obra?
ANTÔNIO TORRES - Memórias – uma voz ao longe, um rosto, um incidente, enfim, alguma coisa que te marcou no passado e que agora volta com um novo contorno a lhe dar uma força extraordinária. Sonhos. E se uma palavra puxar outra enredando-o na primeira frase, pronto: é ir em frente. O resto: 1% de inspiração e 99% de transpiração, quem não sabe?
CRIATIVOS – A propósito, há, em andamento, projeto para um novo romance ou volume de contos?
ANTÔNIO TORRES - Sim senhor: já estou sentindo uma benfazeja coceirinha nas pontas dos dedos, numa indicação de que não passarei este ano de 2026 longe do teclado.
CRIATIVOS - Muito tem se falado do futuro desaparecimento de algumas profissões a partir do desenvolvimento da Inteligência Artificial. No mundo das artes há notícias de que a IA já ocupa o lugar de compositores humanos nas plataformas musicais e que na própria literatura, tem incursões editoriais. Como o senhor vê os avanços tecnológicos e como se relaciona com essa realidade?
ANTÔNIO TORRES - Sei que há muita gente assustada com a possível incursão da IA também no campo da literatura, mas até agora o que tenho visto nas livrarias não dá para temer o desaparecimento dos escribas. Todos ainda estão aqui, dando as cartas, tanto nas listas de bestsellers quanto fora delas. E que assim continuem, por todo o sempre, amém!
CRIATIVOS - O objeto livro, sobrevive a era digital? O e-book é o futuro?
ANTÔNIO TORRES - Para não cair no achismo (eu acho, tu achas, nós achamos...), recorri a quem entende do assunto, no caso um profissional do ramo chamado Sérgio França que, em 2012, como coordenador editorial, implementou a plataforma digital da Record. Hoje editor executivo do Grupo Editorial Zit, ele assegura, com base em dados concretos, que os editores já sabem com clareza que “o e-book é somente uma das vertentes do livro - veio somar, e não dividir com o impresso, como se chegou a pensar”. Passemos aos números: nos Estados Unidos, o maior mercado do mundo, foi onde o livro digital mais cresceu, chegando a 25%. Já na Inglaterra e na Alemanha, 10%. França e Espanha, 7%. Brasil: ínfimos 4%. “Isso não faz nem cócegas no livro impresso”, garante Sérgio França, respaldado pelas pesquisas à tela do seu computador.
CRIATIVOS - Uma pesquisa, realizada pelo IPEC em parceria com o Instituto Pró-Livro, indicou uma queda no hábito de leitura no país, sendo a primeira vez na série histórica que o número de não leitores superou o de leitores. E mais: 73% dos brasileiros não finalizaram um único livro em 2024 e hoje a média anual de livros lidos por pessoa (considerando apenas os leitores) caiu para 3,96. Entre os acadêmicos este é um tema que preocupa? E nas Academias de Letras, se discute propostas para um enfrentamento a essa realidade?
ANTÔNIO TORRES - Os acadêmicos são, antes de tudo, leitores, e, em boa parte, escritores. E qual de nós, os que vivemos da escrita, e para ela, não se preocupa com a queda dos índices de leitura? No caso da Academia Brasileira de Letras – só para dar um exemplo - o enfrentamento a isso se dá pela sua cada vez mais intensa programação, que vai das visitas guiadas às suas bibliotecas e demais espaços, doações de livros para as situadas em áreas carentes, participação de seus membros em eventos literários nacionais, incentivo à leitura através de suas plataformas digitais e da (sua) Revista Brasileira, que se tornou um veículo importante para a divulgação de obras literárias, aos ciclos de palestras, recitais, lançamentos de livros em seus auditórios, sempre com uma ótima média de participação de público.
CRIATIVOS - Mestre, o Brasil continua preso num engarrafamento?
ANTÔNIO TORRES - Agora você me fez lembrar de Um táxi para Viena d’Áustria, o meu 7º. romance, cujo cenário é o Brasil da era Collor. De lá pra cá testemunhamos avanços e recuos, estes, apavorantes, a ponto de me levar a concluir um romance assim: Entre sonhos e sustos, sobreviveremos.
CRIATIVOS - Mestre Antônio Torres, fale sobre o que for do seu interesse e as perguntas não foram suficientes para estimular. E muito obrigado.
ANTÔNIO TORRES – Como você fez uma referência à trilogia iniciada por Essa Terra, permita-me lembrar aqui que também sou autor de uma tetralogia carioca, que começa com o já citado romance Um táxi para Viena d’Áustria, de 1991. Em 1996, escrevi o livro O Centro das nossas desatenções, um passeio pela história do Rio a partir do Centro da cidade, cujas pesquisas me levaram a dois personagens históricos. Um, do Rio no século XVI: o grande guerreiro tupinambá Cunhambebe, de Meu querido canibal (2000); o outro, do século XVIII - o corsário do rei francês Luís XIV, René Duguay-Trouin, de O nobre sequestrador. Estes dois romances receberam o Selo Oficial dos 450 anos do Rio de Janeiro, concedido pela sua Prefeitura Municipal.
Em 2021, em plena pandemia, publiquei o mais ambicioso de meus romances até agora, Querida Cidade, que em 2023 ganhou uma bela edição em Portugal, me levando a três dos seus mais importantes festivais literários: Correntes d’Escritas, de Póvoa de Varzim (a cidade de Eça de Queirós), o Douro, em Sabrosa (Trás-os-Montes), e o Folio (Óbidos), com lançamentos também em Lisboa e no Porto. Mais recentemente saíram por aqui a 16ª. edição de Meninos, eu conto, a 15ª. de Meu querido canibal, e o relançamento de Os homens dos pés redondos, um romance de 1973, cujo título foi achado numa calçada de Lisboa, no meu primeiro dia naquela cidade, em 1965, e também publicado lá, em 2024. Isso para concluir que não sou um romancista de uma trilogia só.
Matéria na íntegra: https://www.portalcriativos.com.br/post/ant%C3%B4nio-torres-do-sert%C3%A3o-baiano-para-o-mundo-para-a-gl%C3%B3ria-e-para-a-imortalidade
07/01/2026