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ABL na mídia - Publish News - A Rosa, os livros e o carnaval

“Dos livros, revi personagens

Barrocas imagens e nobres lembranças”

(trecho do Samba Enredo da Escola de Samba do Salgueiro)

Quase uma miragem. A audiência mundial do carnaval carioca de 2026 apreciou uma comissão de frente da Escola de Samba do Salgueiro, que este ano homenageou a professora, cenógrafa e carnavalesca Rosa Magalhães, com uma performance sobre e por livros.

Os “livros-alegóricos” — que agrupados formavam o nome da ROSA nas lombadas — foram abertos, manuseados, escalados, folheados pelos bailarinos, revelando cisnes, castelos, mares, fauna, flora, croquis de fantasias, imagens de sonho da homenageada, uma apaixonada por história, artes e leitura. Rosa foi professora da Escola de Belas artes da UFRJ e da Escola de Artes Visuais do Parque Lage.

A plateia de bibliófilos efêmeros cantou apaixonada o samba enredo e aplaudiu a escola, que acabou ganhando o 4º lugar de campeonato disputadíssimo, decidido por décimos.

O feliz enredo de Leonardo Antan, materializado pelo carnavalesco Jorge Silveira e a comissão de frente de Paulo Pinna, merecem todas as homenagens, não só pelo ótimo resultado, mas por ver o livro ser manuseado, usado e docemente explorado em plena Passarela do Samba.

Coincidentemente, minha coluna do PublishNews de maio de 2025 falava dos hábitos de leitura. Como estimular essa prática essencial para a juventude, cada vez mais atraída por imagens e superficialidades? E aparece uma escola de samba com o objeto revelado, tornado popular e ao mesmo tempo elegante e bem apresentado, com esmero e leveza; só podia ser coisa da Rosa, com quem tive o prazer de ter ótimas conversas.

Rosa escreveu o primoroso livro Fazendo carnaval (Lacerda Editores), idealizado por Gilda Almeida, no qual descreveu todas as etapas de preparação de um desfile, e afirmou: “Dentre os quesitos de que mais gosto está a comissão de frente. Trata-se de um grupo de no máximo 15 pessoas que tem a missão de apresentar a escola". O livro ainda conta saborosas e pitorescas histórias de seus primeiros carnavais, começando por ter sido chamada, por acaso, para desenhar os figurinos do Salgueiro, em 1971.

Filha do imortal da Academia Brasileira de Letras Raimundo Magalhães Junior e da autora teatral Lucia Benedetti, Rosa teve esmerada formação acadêmica e possuía rica e vasta biblioteca, sua grande fonte de inspiração e pesquisa. Essa paixão bibliófila e uma visão estética singular permitiram conceber belos capítulos da ópera popular que é o Carnaval.

Portanto, ao ver os livros da Rosa desfilando na Passarela do Samba, na Comissão de Frente, abrindo caminho para a Escola, não se pode esquecer de outras inspirações literárias. Destaque para o histórico Sertões, enredo inspirado no livro de Euclides da Cunha, apresentado pela Escola de Samba Em Cima da Hora (hoje na Série Ouro) em 1976, quando os desfiles ainda eram realizados na avenida Presidente Vargas. A letra era do mecânico Edeor de Paula:

“Morrem as plantas e foge o ar

A vida é triste nesse lugar

Sertanejo é forte

Supera miséria sem fim

Sertanejo homem forte (bis)

Dizia o Poeta assim”

Ainda de se registrar que, em 2012 a Imperatriz Leopoldinense homenageou Jorge Amado, com ênfase em Capitães de areia; Dom Quixote foi homenageado pela União da Ilha em 2010 e pela Mocidade Independente, em 2016; em 2017, a Beija-Flor de Nilópolis apresentou A Virgem dos Lábios de Mel sobre a obra Iracema, de José de Alencar.

Escrito esse texto logo após o resultado oficial do desfile, na Quarta-Feira de Cinzas, lembro da coluna de fevereiro de 2012, aqui do PublishNews, que abria com o carnaval: “‘Evoé!’, exclamação dita com maior frequência no Carnaval carioca dos anos 50/60, na verdade era uma “acclamazione di giubilo que si faceva anticamente in onore di Baco” (Dizionario Etimologico on-line). Filho de Júpiter, Deus das vinhas, o nome latino Baco corresponde ao Deus grego Dionísio, e é associado aos prazeres da vida – tanto que o Bacanal, sinônimo hoje de orgia, mereceu descrição mais refinada no dicionário latino Gaffiot; “lieu de réunion des femmes qui célèbrent les mystéres de Bacchus”. O escritor Alberto Mussa destaca o papel do samba enredo no panorama literário brasileiro.

Os livros têm seu lugar e, mais que nunca, são necessários para a educação do país. Homenagear Rosa Magalhães no Carnaval, com livros, na sua sempre querida Comissão de Frente, foi uma bela página do Salgueiro; nem melhor, nem pior, uma Escola diferente. Como diz o samba enredo:

“Mestra, você me fez amar a festa

Tantos alunos por aqui

Segue o legado na Sapucaí.”

Matéria na íntegra: https://www.publishnews.com.br/materias/2026/02/20/a-rosa-os-livros-e-o-carnaval

24/02/2026