Reconhecimentos dos mais variados tipos não são propriamente uma novidade na trajetória da escritora Ana Maria Gonçalves. Em 2007, por exemplo, ela arrebanhou o Prêmio Casa de las Américas - na categoria literatura brasileira -, em função da obra que, tendo sido lançada por ela um ano antes, se tornou uma referência no país: “Um Defeito de Cor” (Editora Record). Já em 2013, foi distinguida pelo governo brasileiro com a comenda da Ordem de Rio Branco, a mais alta honraria do Ministério das Relações Exteriores, e destinada a expoentes “com destacados serviços prestados ao país ou méritos excepcionais”.
Mas foi este ano que a biografia dessa mineira de Ibiá, cidade do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, hoje com 55 anos, registrou um feito que inseriu definitivamente seu nome na história da literatura nacional. Precisamente em julho, por esmagadora maioria (30 dos 31 votos possíveis), Ana Maria Gonçalves foi eleita para a cadeira de número 33 da Academia Brasileira de Letras (ABL). Com a conquista, ela se tornou a 13ª mulher a integrar o panteão dos imortais, mas, mais que isso, a primeira mulher negra a integrar o quadro da instituição, fundada em 1897.
“Cá estou eu, 128 anos depois de sua fundação, como a primeira escritora negra eleita para a Academia Brasileira de Letras, falando português e escrevendo a partir de noções de oralidade e escrevivência. Assumo como missão promover a diversidade nesta Casa, abrir suas portas ao público — verdadeiro dono da língua — e ampliar o empenho na divulgação e promoção da literatura brasileira”, declarou, emocionada, na cerimônia de posse, ocorrida no último dia 7 de novembro.
Na ocasião, a historiadora Lilia Schwarcz colocou em repasse a trajetória da amiga, desde a infância até o momento em que decidiu mergulhar fundo no episódio conhecido como Revolta dos Malês, célebre levante de escravizados ocorrido na Bahia, em 1835, e que é o cerne de “Um Defeito de Cor”. Com quase mil páginas, o romance narra a história da africana Kehinde, assumidamente inspirada na vida da revolucionária Luísa Mahin. A obra, vale dizer, demandou dois anos de pesquisa, um ano de escrita e dois de reescrita.
O empenho da mineira até colocar o ponto final foi de tal vulto que a levou inclusive a abandonar a profissão de publicitária, assim como a viver por um largo tempo na Bahia. Indagada sobre o êxito da obra no programa “Trilha de Letras”, da TV Brasil, Ana Maria Gonçalves pontuou, com admirável modéstia: “É um fenômeno que também tenho tentado entender ao longo desses anos”.
De todo modo, citou a autora norte-americana Toni Morrison (1931-2019), que, lembrou, teria declarado que os livros que escreveu eram, na verdade, os que gostaria de ter lido. Como não os encontrava, resolveu ela mesma partir para a escrita. Assim, “Um Defeito de Cor” foi pelo mesmo caminho. Pelo feedback dos leitores, “acredito ser a mesma coisa: é um livro que muita gente há muito tempo já queria ter lido, principalmente para entender de onde a gente vem, qual é essa nossa história, o quê de história nos foi negado ao longo desses anos. Então, acho que cada um encontra - e se encontra - um pouquinho ali”, explanou.
Atualmente, Ana Maria Gonçalves reside em Copacabana, no Rio de Janeiro. Avessa a redes sociais (inclusive WhatsApp), tem optado por se comunicar principalmente por email. “Um Defeito de Cor”, vale lembrar, inspirou o enredo da Escola de Samba Unidos da Portela em 2024. Ah, sim. Antes do icônico livro, Ana Maria Gonçalves publicou “Ao Lado e à Margem do Que Sentes Por Mim”, produção independente, atualmente esgotada e sem previsão de nova edição. No momento, ela vem se debruçando sobre roteiros para TV e cinema. Não bastasse, escreveu uma ópera junto à conterrânea Grace Passô, sobre o cantor e compositor brasileiro Itamar Assumpção (1949-2003). Em todas essas frentes, ela pleiteia que as vitórias não sejam apenas suas, mas, sim, coletivas, abrindo caminho para muitas outras, como sinalizou em seu discurso de posse na ABL.
Matéria na íntegra: https://www.revistaencontro.com.br/canal/revista/2026/01/ana-maria-goncalves-a-escrita-que-fez-historia-na-abl.amp.html
14/01/2026